Tradução de “A Expedição do Guaporé (1933-1935) – Um diário de Pesquisa”

Acervo de Emil-Heinrich Snethlage

Capa do livro publicado na Alemanha.

Entre 1933 e 1935, Emil-Heinrich Snethlage realizou a expedição que o levou ao alto rio Madeira e ao vale do rio Guaporé, cinco anos antes do etnólogo Claude Lévi-Strauss chegar a essa região. O objetivo da viagem científica era ampliar a coleção do Museu Etnográfico de Berlim. Durante pouco mais de um ano, o pesquisador percorreu os afluentes mais importantes do lado direito do rio Guaporé e visitou 13 povos indígenas, alguns com pouco ou nenhum contato com a cultura ocidental. Ele colecionou mais de 2.400 objetos etnográficos, preservados na reserva técnica do Museu Etnográfico de Berlim, fez escavações arqueológicas, documentou a vida dos povos indígenas em fotografias e em um filme mudo, gravou músicas indígenas em cilindros de cera, arquivados no Arquivo Fonográfico de Berlim (Berliner Phonogramm-Archiv) e anotou listas de palavras de diversas línguas. Os seus cadernos de campo totalizam 1.042 páginas e têm conteúdo científico e preciso. O emprego de diferentes suportes de documentação confere ao acervo um caráter singular e o enquadra na categoria multimídia.

O precoce falecimento do pesquisador, 1939, aos 42 anos, pouco antes do advento da Segunda Guerra Mundial, fez com que a publicação dos resultados de suas pesquisas, em relação ao grande volume de informações que registrou, fosse pequena. As fontes bibliográficas, em sua maioria, se limitam às décadas de 1920 e 1930, com artigos e monografias publicados em alemão.

Desde 2005, em conjunto com a família Snethlage, tenho me dedicado à publicação dos cadernos de campo desse pesquisador. Em 2015 a editora Böhlau publicou o livro em alemão. Esse foi organizado pelo filho do pesquisador, Rotger Snethlage, por um de seus netos, Alhard Snethlage, e por mim, Gleice Mere. O documento tem um valor incomensurável do ponto de vista etnohistórico e linguístico; a região do vale do Guaporé é uma das mais interessantes da América do Sul. A diversidade de idiomas nativos é enorme. Os registros do pesquisador representam a fonte mais completa para o primeiro período de contato da população indígena da região com os não índios e, portanto, são uma contribuição crucial para as tentativas de hoje dos povos indígenas do Guaporé de revitalizar sua cultura original.

 

Exposição da coleção Snethlage dos objetos da cultura material do Guaporé no Museu Etnográfico de Berlim, década de 1930.
À esquerda Alhard e à direita Rotger Snethlage corrigindo os textos dos cadernos de campo digitalizados para publicação. Aachen, Alemanha, 2007.
Gleice Mere na reserva técnica do Museu Etnográfico de Berlim, acompanhada do responsável técnico, 2005.
Gleice Mere, Tanúzio Oliveira e familiares do pesquisador suíço Franz Caspar em visita aos povos da Terra Indígena Rio Branco, 2008.

Tradução dos cadernos de campo

Está em curso a tradução para o português dos cadernos de campo. Carinhosamente apelidei de “a bíblia do Guaporé”, pois neste livro há muitas respostas para questionamentos históricos a respeito da região, no que diz respeito à constelação dos povos indígenas do vale do rio Guaporé. O trabalho de tradução é desenvolvido em parceria com o tradutor João Poça e com pesquisadores da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi. O financiamento do projeto da publicação em língua portuguesa foi obtido por meio de uma emenda parlamentar do então deputado federal de Rondônia, Nilton Capixaba (PTB). Os recursos foram disponibilizados pelo Ministério da Cultura para a Prefeitura Municipal de Alta Floresta d’Oeste – RO, via convênio com a Fundação Biblioteca Nacional. A previsão para a publicação dos cadernos de campo em conjunto com as gravações dos cilindros de cera e uma nova edição do filme mudo é 2020.

Roteiro de viagem de Emil Snethlage 1933-1934

Em seu livro científico-popular sob o título Atiko y (1937) o autor cita o seguinte roteiro de viagem para sua expedição:

1933

  • 17.7        –    Estadia no Pará.
  • 10.8        –    Estadia em Porto Velho, ponto de partida da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
  • 16.8.       –    Visita aos desenhos rupestres no Km 151 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
  • 4.9          –    Estadia no acampamento Komareck [Bolívia] (índios Moré e Itoreauhip)
  • 25.12      –    Viagem ao rio Cautário (índios Kumaná).

1934

  • 1.2          –  Retorno do rio Cautário.
  • 13.2        –  Estadia em Bella Vista [Bolívia] (índios Pauserna)
  • 21.2        –  Em Cafetal, com excursão a Piso Firme (escavações).
  • 4.3          –  Estadia em Pernambuco (índios Chiquitano)
  • 12.3        –  Partida para as aldeias dos caciques Makurap Uaikuri e Guatá.
  • 27.3        –  Retorno a Pernambuco.
  • 5.4          –  Continuação da viagem até a Serra da Aliança (escavações).
  • 15.4        –  Rio Mequéns, subindo.
  • 25.4        –  Estadia na aldeia de Tapuaba (índios Amniapé).
  • 8.5          –  Rumo aos Guaratégaya.
  • 15.5        –  Retorno a Tapuaba (índios Amniapé).
  • 18.5        –  Rio Mequéns, descida.
  • 15.6        –  Rio Branco, subida.
  • 24.6        –  Estadia em São Luiz (Aruá).
  • 28.6        –  Início da caminhada pela floresta (Makurap, Djeoromitxí, Wayurú, Arikapú e Tupari)
  • 3.8          –  Retorno a São Luiz.
  • 11.8        –  Rio Branco, descida.
  • 31.8        –  Estadia em Limoeiro (Wanyam).
  • 9.9          –  Partida de Limoeiro.
  • 23.9        –  Retorno ao Cautário.
  • 4.10        –  Retorno aos Moré e Itoreauhip.
  • 23.10     –  Partida do acampamento Komareck para retorno à Alemanha.

 

Objetos da coleção que permaneceram na reserva técnica do Museu Nacional

Lista de objetos e fragmentos de cerâmica que foram entregues pelo pesquisador ao Museu Nacional, Rio de Janeiro, em 1935.

Devido ao Decreto n. 22.698, de 11 de maio de 1933, que fiscalizava as expedições nacionais, de iniciativa particular e as estrangeiras, de qualquer natureza, empreendidas em território nacional, Emil Snethlage precisou de autorização do governo brasileiro para poder realizar sua expedição. Em contrapartida à autorização o pesquisador deixou duplicatas dos objetos colecionados na reserva técnica do Museu Nacional.

De acordo com o ofício entregue pelo pesquisador ao Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 13 de fevereiro de 1935, foram entregues 912 objetos da cultura material dos povos Kumaná, Wanyam, Aruá, Makurap, Djeoromitxí, Wayurú, Arikapú, Tupari, Amniapé, Guaratégaya, entre outros. Além de 593 fragmentos de cerâmica indígena. Ao lado a lista no documento original, que foi obtida antes do incêndio no Museu Nacional. Não tenho informações se os objetos estavam na reserva técnica do museu por ocasião do incêndio ou se foram arquivados em outro local.

Entre os documentos do acervo do Museu Nacional que se perderam no incêndio estava o acervo de Curt Nimuendajú, com quem Snethlage manteve correspondência.

Mais informações do acervo e artigos relacionados a Emil Snethlage consulte a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú. Veja também posts da Biblioteca no Facebook e no Twitter.

 

Participação dos povos indígenas no processo de resgate das informações registradas pelo pesquisador

Os povos indígenas das Terras Indígenas Rio Branco, Rio Guaporé e Rio Mequéns aguardam ansiosamente pela publicação do livro em português. Em 2009, por meio de um intercâmbio, alguns representantes de etnias Tupari, Makurap, Djeoromitxí e Kanoê tiveram a oportunidade de conhecer a família de Emil Snethlage, na Alemanha.

 

Rotger Snethlage, filho de Emil Snethlage, apresentando os cadernos de campo aos indígenas, Museu das Culturas, Basileia, Suíça, 2009.
Armando Jaboti conhecendo objetos feitos por seus antepassados depositados na reserva técnica do Museu Etnográfico de Berlim, 2009.
Representantes indígenas e família Snethlage em Berlim durante a visita da reserva técnica do museu, 2009.
Representantes de povos indígenas em visita ao Arquivo Fonográfico de Berlim, 2009.

Consulte aqui mais informações a respeito do intercâmbio de indígenas do vale do rio Guaporé com as famílias dos pesquisadores e com museus europeus.

Dra. Ana Vilacy Galúcio, linguista do Museu Goeldi, fez uma consulta ao povo Sakurabiat (Terra Indígena Rio Mequéns), 2017, a respeito das informações dos cadernos de campo.

Linguista do Museu Goeldi, Ana Vilacy Galúcio, em consulta com Olímpio Ferreira Sakurabiat e sua mãe Vicência Sakurabiat.

Em um e-mail para para Gleice Mere ela fez as seguintes considerações a respeito do reconhecimento das informações contidas no livro, relativas ao povo Sakurabiat (citados pelo pesquisador como Guaratégaya e Amniapé/ Mampiapé). 

(…) tenho ótimas notícias!! Estava tentando organizar as informações. Resumindo o que consegui obter. (…) Foi ótimo ter levado as fotos, as pessoas adoraram ver e comentar, e até mesmo conhecer porque muitas coisas da cultura material, eles tinham ouvido falar pelos mais idosos, mas não tinham visto como eram na verdade. As duas pessoas mais velhas (Vicência e Samuel), que ainda tem condições boas de memória, e conseguem conversar, mesmo com dificuldades, conheciam praticamente TODO MUNDO, que foi citado no diário, das malocas Guaratégaya e Amniapé/ Mampiapé, e os filhos e sobrinhos mais novos (que hoje estão na faixa dos 50-60) conheciam essas pessoas de nome e sabiam as histórias de vida, porque os mais velhos contavam.

 Tomás, Tapuaba, Paraíba, (citados por Snethlage) eram todos grandes pajés. O maior deles era o Tapuaba (…) Imagina a felicidade que foi quando viram a foto dele.

(…) Sobre os nomes das etnias/malocas, foi outra grande descoberta: Guaratégaya, é identificado por eles como sendo o subgrupo korategayat ou simplesmente Koratega, como eu já tinha lhe dito. Agora a descoberta mais impressionante, que estava na minha cara, mas não tinha visto ainda foi o nome da outra etnia/maloca Amniapé/ Mampiapé. Eu passei muito tempo, tentando fazer sentido do nome Amniapé, e não conseguia, não fazia sentido para mim, nem para eles. Eu já tinha perguntado anos atrás. Mas eu não tinha prestado atenção na alternativa do nome que sempre é dada Mampiapé. Então, esse é um subgrupo os MÃPI-APEYAT ou simplesmente Mãpi ape porque muitas vezes eles fazem referência ao grupo sem usar o coletivo -yat.

 (…) Então, dos dois (sub)grupos do rio Mequéns visitados pelo Emil Snethlage: Korategayat (Guaratégaya) é o grupo a que pertence Carmelo, que foi o último grande pajé e cacique, e é pai do Olímpio, um dos meus principais colaboradores no estudo da língua; e o outro grupo Mãpi-apeyat (Mampiapé) é o grupo ao qual pertence Vicência, viúva do Carmelo e mãe do Olímpio. Não é fantástico!!??! Tenho isso gravado em vídeo.

 Já o Samuel é também Korategayat, e das pessoas citadas pelo Emil Snethlage, se não me engano o Tomás era tio paterno dele, irmão do seu pai.

Eu fiz alguns vídeos com o Samuel, explicando essas relações, fiz outro vídeo com a Vicência e o Olímpio, em que também falam isso, e explicam um pouco os artefatos da cultura material, confirmando que era do jeito como estão nas fotos, as malocas deles.

Não cheguei a gravar a confirmação de palavras, mas verificamos e confere. Tem algumas diferenças, que podem ter sido tanto por mudanças, ou variação dialetal, ou por dificuldades do Emil de entender ou nossa dificuldade de interpretar a grafia que ele usou. Tenho outros vídeos com o Bonifácio, outro rapaz, que me descreveu na língua muitas das peças representadas nas fotografias.

(…) Estão todos muito entusiasmados e aguardando o livro traduzido para o português.

Dr. Adam Singerman, esteva presente na TI Rio Branco em 2016, época em que o filho do pesquisador Franz Caspar visitou essa Terra Indígena pela segunda vez.

Adam é linguista e desde 2013 documenta a língua indígena Tupari, falada por cerca de 350 pessoas, principalmente na TI Rio Branco – RO.

“É impressionante ver como os indígenas da TI Rio Branco se interessam pelas informações colhidas por pesquisadores estrangeiros durante a primeira metade do século XX. Apesar de não haver mais ninguém que tenha testemunhado a visita de Snethlage, muitos entendem que para resgatar a língua e a cultura indígenas, é preciso aproveitar as informações que o pesquisador coletou e registrou durante sua viagem científica.

Nos anos 1940 e 1950 o etnólogo suíço, Franz Caspar, visitou os Tupari e viveu vários meses entre eles em sua maloca. Em janeiro de 2016, tive a oportunidade de presenciar a segunda visita da família de Franz Caspar aos povos da TI Rio Branco. A primeira visita foi realizada em 2008. Eles receberam com entusiasmo a tradução da monografia para o português, financiada pela família do pesquisador – essa foi publicada, em alemão, nos anos 1970.

A tradução dos cadernos de campo de Emil Snethlage para o português será recebida com muito entusiasmo e gratidão pelos povos indígenas da região. O livro contribuirá para o fortalecimento da luta pela valorização e pelo respeito às línguas e às culturas indígenas brasileiras.”

Adam Roth Singerman, linguista pela Universidade de Chicago, afiliado à Área de Linguística do Museu Paraense Emílio Goeldi. E-mail: adamsingerman@uchicago.edu

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